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Mesma história americana

Publicado em 27 de Janeiro 2013

Líder de grupo neonazista é preso por assassinato. A suástica marcada em seu peito tem pouco a ver com o falecido governo fascista: é usada como instrumento de identificação com a imposição da ordem pela violência. Nashla Dahás

Joelhos contra o chão, botas de soldado e mãos erguidas atrás da cabeça. Cada pedaço do corpo parecia esculpido, perfeito, trabalhado como uma máquina cuja marca estava inscrita no peito. A suástica nazista de Derek Vinyard (interpretado por Edward Norton) não é uma espécie de ode a Hitler ou ao já falido regime alemão, mas um didático instrumento de identificação com a violência como forma de defesa da propriedade, do lar confortável, do emprego estável, da mulher submissa, da pele branca e dos seus hipnotizantes olhos azuis. Não há como deixar de mencionar o olhar assassino do protagonista lançado à vítima, antes do golpe final, quando o negro que tentara roubar seu carro aguarda a morte mordendo o meio-fio.

Esta não é A Outra história Americana, é a mesma, aquela do dogma da democracia dos mais fortes e do progresso utilitário da natureza humana. Embora nenhum dos dois lemas tenha nascido ali, foi nos Estados Unidos dos anos 70 do último século que a sua combinação deu lugar a um espírito americano copiado em quase todas as partes do mundo ocidental, e muito bem representado na cena de abertura do filme. Derek é o homem com senso de autoconfiança inabalável, consciência política moldada às restrições da mente profundamente capitalista, e uma voracidade carnal latente e expressa em quase todas as suas relações. 

Em publicação recente, o historiador Ciro Flamarion Cardoso discute Por que os humanos agem como agem e afirma de antemão que esta é sempre uma questão de tempo. Aqui, dois grandes processos se combinam: as determinações estruturais, algo que nos torna filhos de uma época e que foge ao controle e muitas vezes à consciência individual e coletiva; e os mecanismos que nos levam a escolher entre uma e não outra possibilidade de viver e de sentir, com todos os seus valores e implicações. Em grande medida esta é não só a questão que move a narrativa dirigida pelo inglês Tony Kaye em 1998, mas um impasse existencial, objeto da História e a motivação individual para a obsessão pela memória e pela capacidade de explicar onde foi que as coisas deram errado.

Em busca dessa resposta, o diretor dá menos importância aos movimentos públicos, caricatos e reduzidos à estética do poder e da violência, eles aparecem como manifestações arruaceiras, passatempo de jovens vagabundos talvez, certamente tendências passageiras da superfície social. Stacey (Fairuza Balk), a namorada de Derek, por exemplo, tem enormes olhos e lábios, usa calças justas de couro e coturnos violentamente sedutores, repete frases pela metade, hinos coletivos e regozija-se com o poder aparente das massas em êxtase ao invadir mercearias de chineses ou latinos. Danny (Edward Furlong) é o irmão de aparência andrógina, apaixonado pela autoridade e, consequentemente, fascinado pela obediência quase como se este fosse o seu vínculo erótico, muito mais do que uma percepção do raciocínio. São personagens apresentados como menos complexos; menos resistentes diante da força das tradições americanas que emergiram após o ano de 1968.

Apropriação da suástica

Ao mesmo tempo em que a data tornou-se o ápice de um movimento de transformação no pensamento de esquerda no mundo, a reação no campo oposto da política e da cultura não deixou por menos. Nos Estados Unidos, Martin Luther King não viveu para se sentar à “mesa da fraternidade” com a qual sonhara; e a luta dos negros e dos homossexuais, assim como toda a consolidação do multiculturalismo como “política da diferença”, da singularidade, e não mais das classes, foi acompanhada pelo crescimento dos movimentos de extrema direita, municiados agora pela experiência histórica da indústria da morte nazista.

A apropriação de símbolos como a suástica ou a saudação a Hitler somou-se a um espírito que não poderia ter surgido senão no país mais poderoso do mundo após a Segunda Guerra Mundial; em uma nação cuja história e identidade nacionais estavam alicerçadas pela crença em uma vocação divina para a conquista. Sobre a chegada do homem à lua, o presidente Richard Nixon teria afirmado em 1969 que se tratava do evento mais importante desde a Criação, “prontamente colocando Jesus Cristo no seu lugar”, lembra o historiador húngaro John Lucáks. E para completar essa espécie arriscada de fórmula estrutural para a simpatia pelo ódio racial norte-americano, a onda de desemprego e inflação nos anos 70 parece imprescindível, de modo que o discurso do amor pela “Nação”, pela “Pátria”, vai incluindo pouco a pouco uma ira que se volta contra as pessoas reais, numa luta diária pelo sonho americano.

Contingência, acaso, fatalidade, ou como quer que se defina aquilo que Bob Dylan chamou em 1975 de Simple Twist Of Fate, a prisão inesperada foi o acontecimento que levou o líder neonazista Vinyard à experiência vertiginosa do fim da história linear. Um retrato difuso de si, de suas convicções e de todo o seu próprio passado emergem diante da incapacidade de controlar as circunstâncias, de prever as relações e reações à sua volta, de organizar em arquivos mentais separados o certo e o errado, o branco e o preto, a liberdade e a submissão. A suástica no peito antes utilizada como demonstração de força, produz agora outro de tipo de atração entre os seus pares, que o fazem vítima de um estupro coletivo durante o banho. A cor da pele, até então entendida como senha para os direitos cívicos do homem americano e de uma consciência heróica que legitima a violência da dominação, torna-se simplesmente indiferente; deixa de ser algo contra o qual se deva defender num ambiente em que, ao contrário, a sobrevivência não depende da singularidade, mas das tentativas realizadas por cada um e por cada grupo para construir uma identificação.

Reorganização do passado

O processo trilhado por Derek para recolher os pedacinhos de sua identidade e dar novo sentido à sua história passa por uma reorganização do passado cuja fonte é a própria memória afetiva. As cenas de um cotidiano já distante, à mesa do café e com a presença do pai (um bombeiro morto heroicamente) ganham sons e cheiros. Os diálogos entrecortados pela mastigação discutem o quanto os imigrantes estão roubando empregos, minorias conquistando direitos, espaços e bens, enfim, sobre o quanto as coisas estavam mudando.

Nessa história americana, como em qualquer outra, compreender as possíveis raízes de sentimentos individuais, a forma pela qual os conceitos viram verdades e as ideologias tornam-se formas de viver, não pode resolver as contradições que impregnam a vida no tempo presente, mas será sempre um bom caminho para enfrentar aquilo que nos faz ser quem somos.

fonnte: https://www.revistadehistoria.com.br/

 

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                                                 Sem intermediários                       Publicado em 26 de janeiro 2013

Teorias de Lutero romperam com a autoridade católica pregando o contato direto entre o homem e Deus pelo poder da fé (Silvia Patuzzi)

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    Fundação Biblioteca Nacional

    Fundação Biblioteca Nacional

     

     

     

  • Evangélicos, batistas, presbiterianos, adventistas, pentecostais, protestantes, anabatistas e congregacionistas. Muitas vezes a discussão sobre a doutrina protestante se concentra no problema de classificar e diferenciar suas diferentes denominações. Mas, para além das definições dogmáticas e das confissões de fé, todas estas Igrejas – e outras que se desenvolveram ao longo da fragmentação religiosa da cristandade ocidental – têm o mesmo ponto de partida: o núcleo doutrinal luterano da justificação pela fé.

    Entender o protestantismo significa compreender o que era a fórmula da “salvação pela fé”, tal como foi elaborada pelo frade agostiniano Martinho Lutero, na primeira metade do século XVI, e retomada sucessivamente pelos demais movimentos reformados.

    Martinho Lutero (1483-1546) cresceu e se formou na fronteira eslava da cristandade, na Saxônia, Alemanha, ingressando aos 22 anos no Convento de Erfurt. Sete anos depois, tornou-se doutor em Teologia em Wittenberg, onde passou a lecionar Teologia e Exegese Bíblica. Este mergulho direto nas Sagradas Escrituras, entre 1513 e 1517, permitiu que ele formulasse uma nova interpretação do conceito de Deus e do Homem, condensada na sua doutrina da Teologia da Cruz.

    O impulso definitivo rumo a esta nova doutrina foi a chamada “experiência da torre”, na qual Lutero elaborou o seu conceito de justiça passiva, refletindo sobre um trecho da Epístola aos Romanos, de Paulo: “o justo viverá pela fé”. Muitos haviam meditado sobre o sentido daquelas palavras, mas em Lutero elas dispararam uma reviravolta teológica: o homem era justificado apenas pela fé e de nada valiam as ações individuais, já que não poderíamos modificar a natureza pecaminosa. Lutero, portanto, desenvolveu uma visão muito pessimista da natureza humana, que, em seu entender, permanecia corrompida mesmo após a redenção, a remissão dos pecados que se realiza, para a humanidade, após o sacrifício de Cristo na Cruz.

    Neste caso, a justificação do homem só poderia ocorrer por iniciativa divina: Cristo toma para si o fardo dos pecados dos homens, concentrando os rigores da justa e terrível cólera do Pai. Por mais que o homem fosse pecador, se tivesse uma fé maior que o pecado, Cristo o justificaria.

    Ter fé, no sentido luterano do termo, significava compreender o valor do sacrifício de Cristo e crer em sua graça redentora para abrir o horizonte da salvação. Como era um dom totalmente gratuito, sem nenhum correspondente nas ações humanas, implicava a recusa da noção de “obras meritórias” – sobre as quais o papado havia construído sua própria autoridade, inclusive pela teoria das indulgências (remissão das penas cabíveis para os pecados cometidos).

    Em suas 95 Teses (1517), Lutero condenava as indulgências, pois elas forneciam aos pecadores uma falsa segurança. Se o homem pecador não pode realizar obras boas, as indulgências são inúteis. O que salva o homem é somente a fé.

    Sua luta contra os “abusos” da Igreja Católica não nascera com o objetivo de provocar um rompimento. Tornar laica a vivência religiosa – independente de instituições, de rituais e da presença em locais de culto – e abolir a separação entre o clero e os fiéis eram vistos como um retorno à forma primitiva e apostólica da Igreja, baseada na pregação e na relação direta do crente com Deus, pelas Escrituras.

    No sentido católico do termo, ter fé era outra coisa: aderir à mensagem divina da Revelação do modo como os bispos e os párocos a ensinavam aos fiéis. A fé que salva era um sentimento subjetivo de misericórdia divina, a resposta para o problema angustiante da salvação, que seria alcançada, segundo a Igreja, quando se seguiam os seus ditames: confessar-se, arrepender-se e obter a absolvição libertadora, para realizar boas obras. A confissão, para ter valor, deveria ser completa, e os erros discriminados por quantidade, qualidade e circunstância. Era como contar as gotas de água em um oceano!

    Nos séculos XVI e XVII, aos olhos de mercadores, artesãos, soldados e camponeses, a Bíblia traduzida para uma linguagem familiar e acessível ao fiel, sem cortes e sem precisar da mediação de intérpretes, significava poder encontrar o que buscavam avidamente: por um lado, um Deus vivo, fraterno e humano para com suas fraquezas, e, por outro, uma nova concepção do sacerdócio.

    A definição reformada do sacerdócio universal, expressa pelo lema “Cada homem é pastor de si mesmo”, respondia a este desejo de contato direto com a Palavra de Deus e a uma recusa de todo tipo de intermediação. Para o mercador itinerante, por exemplo, o papel da Igreja como intermediária apagava seu mérito de ter obtido êxito em seu ofício graças ao empenho e a uma educação cultivada privadamente. O gosto pela autonomia e pelo governo de si mesmo não se manifesta apenas nas coisas políticas, refletindo-se também em uma religiosidade mais ativa. Fossem livres, rendeiros, assalariados ou servos, eles traduziam a atuação eclesiástica como mais uma forma de exploração senhorial ou como sua legitimação.

    Para a maioria dos fiéis, a Reforma não era um protesto contra os “abusos” das autoridades eclesiásticas, mas uma revolução de sentimentos. A vida deixava de buscar na morte o seu ponto de referência, e os vivos se empenhavam em usar seus méritos aqui na Terra mesmo.

     

    Silvia Patuzzié professora da PUC-Rio e da Fundação Getulio Vargas e autora de “Humanistas, príncipes e reformadores no Renascimento”, no livro Modernas Tradições. Percursos da Cultura Ocidental, séculos XV-XVII (Editora Access/Faperj, 2002).

     

    Saiba Mais - Bibliografia

    BAINTON, RolandH. Erasmo da Cristandade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.

    FEBVRE, Lucien. Martinho Lutero, um destino. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

    MAFRA, Clara.  Os Evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

     

    Saiba Mais - Filmes

    Lutero”, deEric Till (2003).

    “A rainha Margot”, de Patrice Chéreau (1994).

    “Seis histórias brasileiras: Santa Cruz”, de João Moreira Salles (2000).

FONTE: https://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/sem-intermediarios

 

 

Degolas à gaúcha Publicado em 18 de janeiro 2013

Tropas vindas dos pampas destacaram-se na Guerra de Canudos por seus trajes exóticos e sua extrema violência na execução dos sertanejos Ilustração: João Teófilo

 

Jacqueline Ahlert

O sangue dos sertanejos ainda estava fresco nas lâminas gaúchas enquanto o general Artur Oscar escrevia a Ordem do Dia de 6 de outubro de 1897, concluída com a saudação: “Viva a República dos Estados Unidos do Brasil! Está terminada a Campanha de Canudos!”.

Soldados recrutados nos pampas foram um reforço especial na quarta expedição do governo republicano ao vilarejo baiano, que, surpreendentemente, resistia ao Exército Brasileiro, ao qual impusera três humilhantes derrotas. Os combatentes gaúchos chamaram a atenção tanto por suas                                     
Ilustração: João Teófilo

vestimentas exóticas como pela violência com que participaram da vitoriosa investida. Suas lanças e espadas carregavam a tradição de barbárie das recentes guerras ocorridas no Sul.

Em seus 11 meses de duração, a Guerra de Canudos mobilizou cerca de 12.000 soldados, oriundos de 17 estados brasileiros. As unidades militares sul-rio-grandenses foram recrutadas apenas para a quarta e última expedição. Estima-se que mais de 25.000 pessoas morreram em consequência de toda a ação bélica – entre soldados do Exército Nacional (contabilizados em 5.000), “sertanejos”, mulheres e crianças.

O conflito ocorreu durante o conturbado período que sucedeu à queda da monarquia. Corria a primeira década de instalação do regime republicano quando as unidades do Exército foram chamadas a enfrentar os moradores do arraial de Canudos, no interior da Bahia, seguidores de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, um líder de discurso messiânico, monarquista, e contra os novos impostos da República.

Depois de três derrotas sucessivas dos militares, a importância do conflito agigantou-se. Subjugar o arraial dos “jagunços incultos” passou a ser uma questão de honra para o governo federal. A quarta expedição, de caráter retaliatório, teve os militares gaúchos entre os principais agentes da concretização das palavras pronunciadas pelo presidente Prudente de Moraes: “De Canudos não ficará pedra sobre pedra, para que não mais possa se reproduzir aquela cidadela maldita”.

A princípio, Artur Oscar, o comandante da investida, viu-se em maus lençóis. Em vias de sofrer um esmagamento definitivo, telegrafou ao recém-nomeado ministro da Guerra, o porto-alegrense Carlos Machado Bitencourt, solicitando o reforço de 5.000 soldados. Confiante na capacidade bélica dos gaúchos, o ministro convocou os batalhões de Infantaria e Cavalaria das regiões de Bagé, São Gabriel, Rio Grande, Rio Pardo, Pelotas, Porto Alegre, e de unidades militares transferidas para o Rio Grande do Sul durante a Guerra Civil de 1893-1895, que, no rastro de suas 10.000 mortes, ficou conhecida como “revolução da degola”.  

Com esses poderosos efetivos rearmados, Canudos foi cercada por três meses, bombardeada e, por fim, invadida. Segundo o historiador militar Claudio Moreira Bento, 341 militares gaúchos tombaram na luta; entre eles, 33 oficiais. O general Carlos Teles, comandante de uma unidade sul-rio-grandense em Canudos – e que se destacara na resistência do cerco revolucionário à cidade de Bagé (1893-1894) –, contribuiu para a vitória porque, em pleno sertão, formou um esquadrão de lanceiros ao estilo gaúcho, com 60 homens da Infantaria. Destacaram-se pelo patrulhamento, combate às emboscadas e missões de suprimento de víveres para as tropas isoladas.

Flávio de Barros, principal fotógrafo do conflito, deu especial atenção aos militares gaúchos. Seus fardamentos extravagantes, misturados com peças da indumentária típica de sua região, contrastavam com o inóspito cenário e se distinguiam dos uniformes das demais unidades do Exército na Campanha de Canudos. Recrutados para pelear no sertão, eles não abdicaram das vestimentas que utilizavam nos combates ao Sul. E a identidade regional sulina se fazia notar em plenas plagas sertanejas: a pilcha gaúcha (bombacha, guaiaca, bota, chapéu de abas largas e lenço no pescoço); jaqueta militar, por vezes; espada e, com menor frequência, revólver à cintura; lanças de madeira. O general Silva Barbosa e seu Estado-Maior costumavam ser vistos devidamente “pilchados”.

Para as poses fotográficas, asseavam-se especialmente, assumindo postura “altiva”. A mão na cintura e geralmente uma das pernas flexionada à frente são indícios da segurança de saberem o que representavam e do orgulho de pertencerem àquela confraria. Sua aparência límpida e elegante era ainda mais notável em oposição ao entorno miserável da caatinga, em que construções de taipa ponteavam na vegetação seca.

A Cavalaria tipicamente gaúcha de Silva Barbosa reproduziu no sertão as cargas de lança do pampa. Apesar de improvisados naquele combate longínquo, “tinham a prática das corridas pulando sobre as ‘covas de touro’ das campinas do Sul”, escreveria mais tarde Euclides da Cunha no clássico Os Sertões.

A bombacha, símbolo destacado das tropas de Cavalaria no outro extremo brasileiro, adquire aspecto ainda mais exótico e distintivo em Canudos. Euclides da Cunha, ao tratar do gaúcho, enfatizava que “as suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas.” Euclides também tece loas à combatividade da Infantaria do Sul, que qualifica como “uma arma de choque”: “Podem suplantá la outras tropas, na precisão e na disciplina de fogo, ou no jogo complexo das manobras. Mas nos encontros à arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contrários, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas”.

 Apesar desses elogios românticos, a crueza dos fatos venceu o estilo euclidiano. Com seus próprios olhos, o escritor compreendeu o que significava a especialidade daqueles homens no manejo da “arma branca”. Os gaúchos agarravam cada derrotado “pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na”. Conforme Manoel Benício, correspondente do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, essas degolas ocorriam “sem diferença a sexo e a idade”.

Para suas vivências nos cenários da guerra transpunham, assim, as técnicas das “charqueadas” dos pampas, impressionante matadouro destinado a obter a matéria-prima para fabricar o charque (carne-seca), principal produto de exportação, onde se habituavam a conviver com a morte violenta. É possível imaginar os soldados gaúchos transitando nos espaços dos combates com os canos das botas e as bombachas ensanguentadas, insígnias onde tinham limpado as armas assassinas e onde tinha respingado o sangue das vítimas. Nas imagens posadas para as lentes de Flávio de Barros, suas roupas não têm manchas de sangue ou mesmo sujidade em excesso. As fotografias do coronel Joaquim Manuel de Medeiros e seus ajudantes, e do general Carlos Eugênio e seu Estado-Maior, demonstram a relativa e intrigante limpeza de suas fardas, visto estarem numa guerra. As bombachas reluzem brancas em contraste com o cenário sertanejo. Não se visualizam as vítimas da ética e do estilo gaúcho de guerrear.

Os registros visuais dos gaúchos em Canudos ilustram a ideia da guerra como ato cultural, além de suas implicações políticas e econômicas. Representam indivíduos que se consideravam membros de uma espécie de guilda, uma associação de pares cujos regulamentos, leis e condutas atribuíam ao espírito da guerra um lugar de destaque. Os militares do Rio Grande do Sul, por meio da indumentária gauchesca, se autodistinguiram. Ao praticarem um “serviço relevante” à República que surgia, tiveram sua “identidade regional” reconhecida por toda a nação. Dessa forma, um grupo exclusivo da região pecuária dominada pela oligarquia de fronteira – e que jamais representou a maioria da população rio-grandense – configurou-se como expressão hegemônica da cultura sulina. Nesse sentido, a Guerra de Canudos representou o grande evento nacional de reconhecimento oficial do gaúcho, potencializando no Rio Grande do Sul um movimento identitário que até hoje marca as relações entre esse povo e os demais brasileiros.


Jacqueline Ahlert é professora da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo.


Saiba Mais - Bibliografia

BENÍCIO, Manoel. O rei dos jagunços: crônica histórica e de costumes sertanejos sobre os acontecimentos de Canudos. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 1997.
GOLIN, Tau. “A memória silenciosa dos canuchos: a participação dos gaúchos na Guerra de Canudos”. In: GOLIN, Tau. Visualidades do Sul: história & livros. Passo Fundo: Ediupf, 1998.
POSSAMAI, Paulo (org.). Gente de guerra e fronteira: Estudos de História Militar do Rio Grande do Sul. Pelotas: UFPel, 2010.
ZAMA, César. Libello Republicano Acompanhado de Comentários sobre a Campanha de Canudos por Wolsey. Bahia: Typ e encadernação do Diário da Bahia, 1899. In: Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, nº 139, 1989.

Fonte: https://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/degolas-a-gaucha

 

Uma história oral de Canudos
Documentário registra depoimentos de homens e mulheres cujas vidas foram marcadas pela brutal ação do Exército brasileiro no sertão da Bahia entre 1896 e 1897
por Bruno Fiuza
Divulgação
Antonio de Isabel, morador do sertão da Bahia que conheceu pessoalmente Antônio Conselheiro

No ano do centenário da morte de Euclides da Cunha, chega às locadoras um documentário que joga nova luz sobre a destruição do arraial de Antônio Conselheiro.

Em Sobreviventes – Os filhos da Guerra de Canudos, o diretor Paulo Fontenelle registra depoimentos de homens e mulheres cujas vidas foram marcadas pela brutal ação do Exército brasileiro no sertão da Bahia entre 1896 e 1897.

Os “atores” principais do filme são filhos e netos dos que lutaram até o fim ao lado de Antônio Conselheiro, a maioria idosos na casa dos 90 anos. Um dos entrevistados, Antonio de Isabel, de 110 anos, chegou a conhecer pessoalmente Conselheiro.

Por meio dos depoimentos, Fontenelle apresenta uma história oral de Canudos que revela facetas pouco conhecidas do conflito. Além dos parentes de moradores, o documentário também conta com a participação do historiador baiano Antônio Olavo, que conta o que foi a experiência da comunidade sertaneja e sua destruição da perspectiva do pesquisador acadêmico.

 
Bruno Fiuza é editor da revista História Viva.

Fonte:https://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/uma_historia_oral_de_canudos.html

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O desenvolvimento do imperialismo no mundo

CLAUDIO B. RECCO
Especial para a Folha de S. Paulo

O início do século 20 na Europa não apresentou grandes mudanças, pelo menos do ponto de vista estrutural. As disputas imperialistas, iniciadas nas últimas décadas do século anterior, ainda davam a tônica da política das principais nações e se tornavam mais agudas a cada momento.

A segunda Revolução Industrial permitira que outros países questionassem a supremacia britânica e alcançassem grande desenvolvimento. Mas a manutenção do ritmo acelerado de crescimento foi condicionada à conquista de novos mercados, ao mesmo tempo em que a formação de conglomerados empresariais acirrou a disputa neocolonialista.

Os interesses imperialistas nacionais foram responsáveis pelo armamentismo e por conflitos localizados. Podemos perceber a lógica e as contradições do imperialismo quando várias potências se unem para invadir a China e, ao mesmo tempo, brigam entre si pelo domínio de outros territórios "coloniais".

A península Balcânica foi a região em que se expressaram os mais diversos interesses: o sonho imperialista austríaco, fomentado pela Alemanha, o russo, amparado pela Inglaterra, o sonho da "Grande Sérvia", assim como os ideais nacionalistas de bósnios, croatas, macedônicos, albaneses, kosovares e montenegrinos, que até pouco tempo estavam sob o domínio do turco.

As tensões na Europa chegaram ao seu ponto máximo com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, uma guerra imperialista entre as grandes potências e que ainda envolveu países que pretendiam tornar-se grandes, adotando o mesmo modelo imperialista --casos principalmente da Áustria e da Rússia, países atrasados que, do ponto de vista do capitalismo, não podem ser considerados imperialistas, mas que adotaram os mesmos padrões de desenvolvimento econômico e as mesmas práticas expansionistas.

Esse também foi o período de maior expansão dos Estados Unidos, apoiados principalmente na política do "big stick", quando desenvolveram suas ações principalmente na América Central e no Caribe e aproveitaram-se da Primeira Guerra para consolidar sua estrutura industrial, ampliando as exportações para a Europa e para os países americanos que até então dependiam da Inglaterra.

Dica: Perceba que o comportamento expansionista dos EUA foi diferente do praticado pelos países europeus e pelo Japão. O que explica essa situação?

Claudio B. Recco é coordenador do site www.historianet.com.br e autor do livro "História em Manchete - na Virada do Século"